I CONCURSO PETROBRAS CASABLOCO DE ARTES CARNAVALESCAS
No princípio, o silêncio. O Recife antigo dormia à beira dos rios, entre becos e casarios que guardavam as memórias de um povo vibrante. Como em uma sinfonia prestes a começar, os primeiros sinais de vida surgiam com os acordes tímidos de um frevo ensaiado ao longe. A melodia parecia despertar a cidade como o sol que desenha os contornos do horizonte, iluminando as águas do Capibaribe e do Beberibe. Era como se a cidade respirasse fundo antes de se entregar ao turbilhão de cores e ritmos que estava por vir.
Antes mesmo que os tambores ribombassem, o ar já se carregava de expectativa. Pelas ruas de paralelepípedos, as fachadas dos sobrados ganhavam novas cores, como se cada casa também vestisse sua fantasia. O cheiro doce de bolo de rolo e o calor da manhã se misturavam à brisa leve do rio, criando um cenário que parecia esperar por algo grandioso. E então, como um clarim que rompe a madrugada, surgia o som inconfundível de uma orquestra de frevo.
Um estandarte se ergue, e com ele o coração da cidade bate mais forte. Os primeiros foliões tomam as ruas, ainda tímidos, como quem desbrava um caminho já conhecido, mas sempre repleto de novas surpresas. Na Praça do Marco Zero, o chão vibra com os passos ensaiados de passistas. A cada movimento dos guarda-chuvas coloridos, a cidade também parece respirar, pulsar, se agitar. O Carnaval nasce, ano após ano, não de um decreto ou de um aviso, mas do reencontro entre as pessoas e o espírito da festa, entre a tradição e a criação.
Naquele primeiro sábado de fevereiro, Recife vestia-se de gala, como em um casamento eterno com sua própria alma. O Galo da Madrugada, gigante de peito inflamado, reinava absoluto, ecoando tambores e saxofones que davam o tom da festa. Pelas ruas de São José e Santo Antônio, o maior bloco do mundo arrastava uma multidão em um turbilhão de corpos e almas. O que antes eram desconhecidos tornava-se uma unidade vibrante, onde cada sorriso e cada abraço construíam laços efêmeros e eternos, embalados pelo mesmo amor à festa imortal.
Recife se transformava em uma tela viva e pulsante. Cada rua estreita, cada esquina colorida, cada rosto iluminado era parte de um quadro em constante movimento. Homens e mulheres, jovens e velhos, rendiam-se ao frevo, entregando seus corpos ao compasso frenético da folia. Enquanto isso, Olinda, com suas ladeiras íngremes e casario antigo, preparava-se para seu próprio espetáculo. À meia-noite, o Homem da Meia-Noite surgia, imponente como um deus travesso, conduzindo o povo em uma batida ritmada que não apenas ecoava, mas vibrava dentro de cada coração.
No meio desse fervor colossal, os blocos menores destacavam-se como joias preciosas. O Ceroula dançava como um suspiro de liberdade, transformando o chão em tela e os passos em pinceladas de uma arte efêmera. O Bloco da Saudade, com suas melodias nostálgicas, invocava memórias de um tempo em que o Carnaval era mais poesia do que performance, entrelaçando passado e presente em uma saudade doce. E então vinha o Mangue Beat, trazendo consigo um tributo visceral à resistência cultural. Cobertos de lama, os foliões celebravam não apenas a festa, mas a vida em sua essência mais crua e revolucionária, lembrando que o Carnaval é, antes de tudo, renascimento.
E quem poderia esquecer a irreverência do Eu Acho É Pouco, tingindo as ladeiras de Olinda de vermelho e amarelo como um incêndio de alegria, ou a fantasia desenfreada do Enquanto Isso na Sala da Justiça, que transportava os foliões para um universo lúdico de super-heróis? No Recife Antigo, o I Love Cafusú misturava juventude, irreverência e paixão, arrastando multidões em um frenesi de música e energia contagiante. A cada passo, a cada sorriso, o Carnaval revelava-se como uma celebração coletiva e profundamente pessoal, um encontro único entre o indivíduo e o todo, vivido com a alma em chamas.
Olinda, por sua vez, era pura poesia. Suas ladeiras desafiavam corpo e espírito, convidando à entrega total. As casas coloridas, o som incessante do maracatu e a autenticidade vibrante do improviso criavam uma magia singular. Ali, o Carnaval não era apenas visto, mas sentido. Cada curva das ladeiras guardava histórias não contadas, cada esquina era um portal para segredos do passado. O calor dos abraços, a autenticidade do riso e a união espontânea faziam das ladeiras de Olinda um palco onde o humano e o divino dançavam juntos.
E então chega o momento em que tudo se funde. No fim, pouco importa onde se esteja: na grandiosidade esmagadora do Galo da Madrugada ou na intimidade calorosa de um bloco menor; nas ladeiras fervilhantes de Olinda ou sob a brisa encantada do Capibaribe em Recife. Porque o Carnaval é menos sobre o lugar e mais sobre o que carregamos dentro de nós: a capacidade infinita de sonhar, dançar e celebrar.
É no Carnaval que a alquimia da vida acontece de forma mais visceral. O que é o frevo, senão uma fusão entre ritmo e coração? O que são as fantasias, senão sonhos que ganham forma? E o que são os amores carnavalescos, senão encontros onde o tempo perde sua força, e o que poderia durar minutos parece conter a eternidade?
Os amores do Carnaval têm sua própria magia. Não são feitos de promessas futuras, mas do instante presente.
Eles nascem nos olhares que se encontram entre a multidão, no calor dos abraços de um desconhecido que, por um momento, parece um velho amigo. Esses amores não pedem explicações nem razões, apenas se deixam viver, com a urgência e a leveza de quem sabe que tudo é passageiro — e talvez por isso, tão inesquecível.
Nas ruas coloridas e sob as estrelas que parecem mais próximas, o Carnaval transforma o ordinário em extraordinário. Um sorriso compartilhado em meio à folia torna-se uma confissão silenciosa. Uma dança improvisada entre estranhos se converte em uma coreografia perfeita, como se o universo tivesse ensaiado aquela cena mil vezes antes de apresentá-la. O Carnaval nos lembra que amar é, acima de tudo, uma entrega.
E quando o chão vira céu e o céu vira mar, é como se todas as fronteiras se apagassem. Não há divisão entre o eu e o outro, entre o corpo e o espírito, entre o instante e a eternidade. Somos todos parte de uma dança sem fim, onde o compasso frenético do frevo é também o compasso do coração.
Assim, o Carnaval se encerra como começa: com amores e cores, com passos que nunca cessam e risos que ecoam mesmo depois que o silêncio volta a habitar as ruas. Ele nos lembra, em sua essência, que somos feitos de festa, renascimento e poesia. Que dentro de cada um de nós, há uma alquimia capaz de transformar a vida em celebração.
E quando finalmente a folia se vai, levando consigo a música e o brilho, o que fica é a memória de que, por alguns dias, o impossível aconteceu. O amor foi livre, o riso foi pleno, e a vida, mais do que vivida, foi sentida. Afinal, o Carnaval não termina — ele apenas descansa, esperando o momento certo para reacender as chamas do que há de mais humano em nós: a busca incessante por alegria, conexão e eternidade.
CHRISTIANE FARIAS, natural do Acre, com uma trajetória que me levou ao Rio de Janeiro e, atualmente, estou em Recife, em busca de novas inspirações. Minha paixão por leitura e viagens me levou a explorar diversas culturas, e considero minha especialidade retratar essas experiências de maneira a imergir o leitor na vivência que estou compartilhando. Como autora experimental, participei de vários concursos literários, sendo vitoriosa em alguns deles. Busco sempre transmitir a riqueza de cada cultura e experiência, proporcionando uma leitura que faça o leitor sentir como se estivesse vivendo aquela realidade.
A fotografia que acompanha o texto é de autoria de HUGO MUNIZ, fotografo, pernambucano e tem seu trabalho dedicado diretamente as manifestações culturais de Pernambuco. Em sua trajetória, vem registrando a rotina de Mestres, Mestras e manifestações como Maracatu de Baque Solto e virado, Frevo, Ciranda, Cavalo marinho, Caboclinho, Coco e Bois.